A decisão do governo dos Estados Unidos de impor uma tarifa global de 15% sobre produtos importados redesenhou o cenário do comércio internacional e trouxe impactos diretos para o Espírito Santo, cujo principal parceiro comercial no exterior é justamente o mercado norte-americano.
A medida veio após a Suprema Corte norte-americana derrubar as tarifas que chegavam a 50% sobre itens brasileiros. Em reação, o presidente Donald Trump anunciou inicialmente uma tarifa global de 10%, elevada dias depois para 15%. A nova taxa passou a valer à 0h01 de terça-feira, 24, no horário de Washington.
A decisão da Corte anulou sobretaxas aplicadas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, incluindo tarifas recíprocas de 10% e a sobretaxa de 40% imposta a diversos produtos brasileiros. Com isso, a tarifa consolidada para a maioria dos itens passou a ser de 15%. Aço e alumínio, porém, continuam sujeitos à alíquota de 50%, somada à nova taxa global.
Espírito Santo no centro do impacto
Os Estados Unidos absorveram 16,8% das exportações capixabas em 2025. Entre os principais produtos enviados estão rochas ornamentais, aço, petróleo, celulose, café e minério de ferro. Todos passam a enfrentar nova estrutura tarifária para ingressar no mercado americano.
O advogado especialista em Direito Comercial Internacional Bruno Barcellos Pereira explica que os 15% representam o teto autorizado pela Seção 122 da legislação comercial americana sem necessidade de aprovação do Congresso, com validade temporária de até 150 dias.
No caso das rochas ornamentais, setor fortemente dependente do mercado americano, a alíquota cai de 50% para 15%. Segundo Pereira, o impacto tende a ser relevante em contratos e margens, ainda que menor do que no cenário anterior. Celulose, minério de ferro e ferro fundido também passam a recolher 15%. Para a celulose, commodity de alta demanda global, parte do impacto pode ser absorvida pelo mercado. Já no minério, o efeito dependerá da capacidade de repasse ao comprador.
Mudanças no café
O setor cafeeiro acompanha com atenção as definições. O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil informou que segue monitorando a publicação oficial das medidas. O entendimento preliminar é de que café verde e café torrado e moído permanecem isentos, conforme acordo firmado anteriormente. O café solúvel deixaria de pagar 50% e passaria a recolher 15%, em igualdade com concorrentes internacionais.
Para a Associação Brasileira da Indústria do Café Solúvel, a mudança representa alívio. Segundo o diretor executivo Aguinaldo Lima, os Estados Unidos são o principal mercado do café solúvel brasileiro há mais de 60 anos, respondendo por cerca de 20% das exportações do segmento, com movimentação superior a US$ 250 milhões. A equiparação a 15% reduz distorções e restabelece competitividade.
Possíveis ganhos
O presidente do Instituto Jones dos Santos Neves, Pablo Lira, avalia que, apesar da instabilidade global, o Brasil pode estar entre os países mais beneficiados pela derrubada do tarifaço. Estudo do Global Trade Alert aponta que a economia brasileira teria a maior redução média de tarifas, com queda de 13,6 pontos percentuais.
Para o Espírito Santo, Lira destaca que rochas ornamentais, pescados, uva e mel podem se beneficiar da nova configuração, ao deixarem o patamar de sobretaxa e passarem à tarifa global de 15%.
O cenário ainda é de cautela. A medida tem caráter temporário e depende de desdobramentos políticos em Washington. Enquanto isso, exportadores capixabas reavaliam contratos, margens e estratégias diante de um mercado que segue central para a balança comercial do Estado.




























